
MINAS VIVAS E LIVRES: pelo nosso direito a uma vida sem violência
Por Iza Lourença
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Entre janeiro e março, 399 mulheres foram assassinadas no Brasil — uma média de 4 por dia —, alta de 7,5% em relação ao ano anterior, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Minas Gerais é o segundo estado no ranking de feminicídios, e a vereadora Iza Lourença defende políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero.
Desde a época em que fazia parte do movimento estudantil, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o feminismo é para mim uma grande escola de aprendizado. Entre as mulheres e pessoas dissidentes de gênero, aprendi a conviver com as diferenças e a fazer delas oportunidades de transformação da realidade. Aprendi que a relação entre patriarcado, racismo e o capitalismo impôs para nós, principalmente para nós mulheres negras, condições de subjugação, que insistem em nos empurrar para situações de vulnerabilidade.
Também é entre as mulheres que aprendo, todos os dias, a resistir.
Sobretudo diante desta realidade:
399 mulheres assassinadas no Brasil, entre janeiro e março.
Mais um recorde.
São 4 mulheres por dia.
Mortas simplesmente pelo fato de ser mulher.
Esses dados são do Ministério da Justiça e Segurança Pública e reforçam que vivemos uma epidemia de feminicídios. Foi uma alta de 7,5% no número de vítimas em relação ao mesmo período do ano passado.
Minas Gerais permanece o segundo estado nesse ranking perverso. Em casa, na rua, nas cidades, áreas rurais, seguimos vitimadas, perseguidas e ameaçadas por maridos, namorados, ex-companheiros. Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirma exatamente isso: quase 60% das mulheres foram mortas pelo parceiro e mais de 21%, pelo ex-parceiro. Morremos porque eles não aceitam que temos o direito de decidir sobre a nossa vida, nosso corpo e nosso desejo. Morremos porque na sociedade patriarcal se ensina a violência, que homens devem odiar as mulheres. Se ensina a misoginia.
Em março deste ano, em pleno mês que celebramos a luta das mulheres em todo o mundo, vi mais um estudo que me deixou estarrecida. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) apontou que, proporcionalmente, o dobro de meninas de 13 a 17 anos, comparado aos meninos, se sentiram tristes nos dias anteriores à pesquisa e alegaram que a vida não vale a pena ser vivida. Segundo o estudo, são as estudantes que mais se machucaram intencionalmente. Como poderia ser diferente? De um lado, a sociedade está cada vez mais violenta e machista, de outro, as meninas estão cada vez mais tristes.
Sou mãe. Penso na minha criança, e também nas outras. Qual futuro estamos projetando para elas? Penso também que temos que agir no presente, no agora. É urgente refletirmos, como sociedade, como criamos e educamos nossos filhos e filhas. Temos que continuar ensinando as meninas a não se curvarem diante do machismo. Mas temos que ensinar meninos a respeitarem, cuidarem, ouvirem, valorizarem e admirarem mulheres para além das que são de suas famílias. O desafio feminista do nosso tempo é ampliar o debate com o homens, trazendo eles para perto, e fazer com que os meninos rompam com a masculinidade tóxica. Todo mundo ganha com uma sociedade com mais igualdade de gênero.
Criminalizar a misoginia e caçar os redpill
Não é novidade que a extrema direita manipula o debate sobre gênero e feminismo para criar pânico moral na sociedade e engajar a partir do medo. Nessa cruzada, colocam uns contra os outros, espalham notícias falsas e distorcem tudo, mas tudo, o que a gente propõe para minimizar as desigualdades entre homens e mulheres. É isso que a gente tem visto em relação ao Projeto de Lei (PL) 896/2023, que criminaliza o ódio contra as mulheres, equiparando a misoginia ao racismo. Um passo importante para coibir quem incentiva e monetiza nas redes sociais discursos de violência contra as mulheres.
Uma análise do Observatório Lupa mostrou a onda de desinformação, com mentiras e argumentos sem base factual, sobre o projeto, provocada por políticos e influenciadores de extrema direita para ampliar a rejeição ao projeto. Entre as baboseiras, eles espalharam que os homens poderiam ser presos por perguntar se uma mulher está com TPM, que empresas estariam demitindo funcionárias para evitar processos e que trechos da Bíblia passariam a ser criminalizados. Por que eles têm tanto medo desse projeto?
O fato é que o PL mira diretamente na machosfera e na cultura “redpill”, responsáveis por propagar a violência contra as mulheres e naturalizar agressões, estupros e feminicídios. Esses influenciadores precisam ser desmascarados e banidos das redes sociais. A internet não é terra de ninguém. E esses políticos que tratam o PL da Misoginia como uma “aberração”, precisam receber um recado nas urnas. O parlamento não deve ser inimigo das mulheres.
Enquanto isso, em Minas Gerais
Por aqui, o governo de Romeu Zema, continuado por Mateus Simões, se alinha cada vez mais à extrema direita, mostrando que não se preocupa nem um pouco com as mulheres mineiras. Não tem política pública efetiva, não tem interesse em proteger as nossas vidas. Nem se comove com os dados alarmantes de feminicídios. Por mesquinharia, não aderiu ao Pacto Nacional Contra o Feminicídio, iniciativa do governo Lula, lançada em 2023.
A medida reúne os três poderes federais, estados e municípios para fortalecer políticas públicas de prevenção, proteção e responsabilização dos criminosos. E ainda prevê ações integradas entre segurança pública, instituições de justiça, assistência social e políticas para mulheres, garantindo atendimento mais rápido às vítimas. A adesão de Minas Gerais ao pacto facilitaria o acesso a recursos financeiros específicos para ampliar as políticas no estado. Nenhuma dúvida de que precisamos varrer essa extrema direita do nosso estado.
Diante disso, continuamos a resistir
Como falei no início deste texto, é entre as mulheres e pessoas dissidentes de gênero que aprendi que é no coletivo que encontramos saídas para conjunturas ruins. Tenho convicção de que dias melhores virão e, além de resistir juntas, sairemos às ruas, dançaremos juntas. A nossa luta é árdua. Seguimos corajosas.

